Século 14, Século 15, Tutoriais, Vestuário

Como fiz uma roupa íntima medieval com sustentação para os seios

Usar roupas íntimas adequadas para o período faz toda a diferença para tornar seu conjunto mais próximo dos modelos históricos e também para garantir um melhor caimento da roupa no corpo. 

Passei muito tempo sem ter uma peça dessas para usar sob meus trajes. Mas recentemente fiz uma roupa de baixo medieval que é confortável, ajuda a dar sustentação para os seios e ainda deixa os meus vestidos dos séculos 14 e 15 melhor ajustados. 

Quer saber como foi o processo de criação dessa peça? Veja a seguir um pouco de como foi minha pesquisa e inspire-se para criar sua própria roupa íntima da Idade Média. 

Roupa íntima feminina na Idade Média

Majoritariamente feitas de linho, as roupas íntimas da Idade Média cumpriam um papel importante tanto para proteção e higiene do corpo, quanto para a conservação das peças que eram usadas por cima.

As roupas de baixo ficavam em contato direto com a pele, absorvendo odores e suor, e eram, portanto, as peças de vestuário lavadas com maior frequência. Lembre-se que lavar as roupas externas – principalmente aquelas tingidas, bordadas e ricamente adornadas – significava deteriorar a roupa. Por isso, era natural lavar a roupa de baixo com bastante frequência e as camadas externas somente quando necessário.

No caso das mulheres, a principal roupa íntima era a smock, shift ou chemise. Uma espécie de camisa mais longa, cortada a partir de peças retangulares de tecido. A chemise era normalmente feita de linho – de qualidade variável de acordo com a posição social de quem usava – ou de cânhamo, no caso das mulheres mais pobres.

Apesar de presente ao longo de toda a Idade Média, a chemise passou por variações ao longo dos séculos, sobretudo em relação ao estilo da gola ou decote, ao comprimento da peça e a existência ou não de mangas.

Em iluminuras e pinturas do período medieval é possível observar alguns estilos diferentes de chemise: algumas mais soltas, outras ajustadas ao corpo, peças com mangas compridas e modelos de alças finas.

E como fica a sustentação dos seios?

Sustentar o peso dos seios têm sido uma preocupação das mulheres ao longo dos séculos. Não vou entrar aqui na discussão sobre repressão e imposição social. Mas uma coisa é fato: seios, especialmente os grandes, pesam. 

Por isso, ao longo da história, alguns itens do vestuário ajudaram na sustentação dos seios, garantindo mais conforto para as mulheres – e contribuindo para alcançar a silhueta de cada período.  Por muito tempo, foram os stays, espartilhos e corsets que cumpriram esse papel. Mas eles são posteriores à Idade Média.

No período medieval era o modo como as próprias roupas – íntimas ou não – eram costuradas que possibilitava a sustentação dos seios. Especialmente em alguns períodos como no século 12 e na segunda metade do século 14 quando a silhueta era mais justa, os vestidos e sobrevestes também aumentavam a sustentação dos seios, uma vez que eram fechados por cordões ajustados na hora de vestir. 

Em História do Vestuário, Carl Köhler destaca como alguns modelos de bliaut, sobreveste do século 12, eram ajustados na região dos seios:

A parte superior agora extremamente justa, podia ser fechada por cordões tanto nas costas quanto nas laterais, descendo das axilas aos quadris. A roupa de baixo ficava exposta – geralmente nos lados. Mais tarde, para enfatizar o contorno do busto, a frente da sobreveste passou a ser cortada em duas peças; sendo a de baixo perfilada em cada um dos lados, de modo a formar uma ponta que subia entre os seios. Na parte de cima, costurava-se um pedaço de tecido maior e mais largo do que as excisões, e este por sua vez descia do decote ou busto. Ao costurar as duas peças a partir da ponta central, descendo pelos dois lados, formava-se um bojo para os seios. 

História do Vestuário, página 171

Então, de forma bem resumida: em alguns casos era o vestido de cima (bliaut, kirtle, cotehardie, etc…) que era mais ajustado; em outros era a chemise que era cortada mais justa nos seios e logo abaixo deles; e em outros, tanto a roupa de baixo quanto o vestido seguiam as linhas do corpo sustentando os seios.

O “sutiã medieval” do Castelo de Lengberg

Ainda sobre roupa íntima medieval e sustentação dos seios, eu não poderia deixar de mencionar as descobertas feitas no castelo de Lengberg, na Áustria, em 2008. 

A pesquisa liderada por Beatrix Nutz, da Universidade de Innsbruck, encontrou uma série de fragmentos têxteis no castelo. Entre eles, pelos menos duas roupas íntimas femininas que se assemelham bastante com os sutiãs modernos.

Na realidade, a peça não é uma espécie de sutiã, mas sim a parte de cima de uma chemise com um tipo de bojo. O teste de datação por carbono apontou que as peças encontradas no castelo são do final do século 15. 

Roupa íntima feminina do final do século 15, descoberta no Castelo de Lengberg, em 2008.

A descoberta do “sutiã medieval” e de outras peças íntimas do castelo de Lengberg é um assunto tão interessante que rende um post próprio. Falarei mais sobre ele em breve.


Construção da minha peça

Agora que já vimos um pouco de como eram as roupas íntimas da Idade Média, é hora de saber como foi o processo de construção da minha peça.

1. Definição do modelo

Como a maioria dos meus vestidos são baseados em modelos do século 14 e primeira metade do 15, resolvi fazer uma roupa íntima que fizesse sentido com esse período

Para isso, utilizei como referência alguns peças sem mangas que são vistas especialmente em iluminuras do século 14, retratando cenas de banho:

2. Construção do molde

Para montar a roupa de baixo de apoio, segui o modelo de camisa suportiva da Anna Atilliani (Tacuinum Medievale): sem mangas e fechada com cordões nas laterais. 

A peça segue o padrão básico de um kirtle. São dois painéis frontais com a costura da frente curvada, dois painéis das costas e quatro gores (um na frente, um atrás e um em cada lado para aumentar a amplitude da saia. O comprimento da peça é até a metade da canela. 

Como tenho alguns kirtles de manga curta, optei por fazer uma roupa de baixo sem mangas, assim posso usá-la tranquilamente com eles. 

Os kirtles normalmente são fechados com cordões na frente, mas preferi fazer as aberturas nas laterais, para que a peça não marcasse a frente dos vestidos. 

 Além disso, deixei o molde um pouco mais curto, com a saia começando logo na cintura e não um pouco abaixo como ocorre nos kirtles. (Como tenho os quadris muito estreitos, a ideia era criar um volume um pouco acima para melhorar o caimento dos vestidos e não deixar a saia muito “murcha”).

Também escolhi fazer um forro que vai até a cintura para deixar a peça mais reforçada. Nenhuma das reconstruções de roupas de baixo que pesquisei tinham forro, mas era comum que os kirtles tivessem. 

Esta foi a etapa mais desafiadora do projeto. Foram necessárias várias versões do molde e alguns mockups em tecidos para acertar o ajuste ideal.

Se você está pensando em fazer uma roupa de baixo com sustentação ou um kirtle, recomendo dar uma olhada nos seguintes conteúdos sobre moldes:

3. Escolha do tecido

Linho era o tecido mais utilizado em roupas íntimas da Idade Média, justamente por ser uma fibra mais leve, respirável e suave no contato direto com a pele.  Por isso, usei linho branco. ( Infelizmente não era linho puro, mas era uma boa opção de linho misto com algodão). 

4. Costuras e acabamentos

Juntei todas as peças com ponto atrás (backstitch), usei o ponto oversewing para juntar a peça e o forro no decote e na cava das mangas. Por fim, usei o ponto de bainha (hemming stitch) para fazer o acabamento de todas as costuras internas e da barra. 

Para fechar a peça nas laterais, fiz os ilhoses a mão e trancei o cordão usando a técnica de finger loop braiding.

O resultado!

Como eu comentei anteriormente, o principal desafio de fazer uma roupa íntima medieval bem ajustada foi acertar o molde. Mas com a peça pronta o resultado não poderia ser melhor! A peça se ajustou perfeitamente ao meu corpo e o linho – como sempre – é muito confortável e fresco.

Na hora de mostrar a peça pronta, aproveitei para reproduzir algumas das poses das mocinhas da casa de banho da Bíblia de Wenceslaus IV…

Gostou do post? Se animou em fazer sua própria roupa de baixo medieval? Deixe o seu comentário e aproveite para compartilhar este texto nas suas redes sociais. 😉

Referências:

[Livro] A história do Vestuário – Carl Köhler
[Livro] The Medieval Tailor’s Assistant – Sarah Thursfield
[Texto] Rosalie’s Medieval Woman – Chemises
[Texto] Tacuinum Medievale: Camisa supportiva / Supportive underwear 
[Texto] How to make a supportive smock for your medieval outfit 
[Texto] Tutorial: Supportive Kirtle – Morgan Donner
[Texto] Medieval lingerie? Discovery in Austria reveals what really was worn under those tunics  
[Texto] A curved-front seam fitting method for a bust-supportive dress
[Vídeo] Drafting a Medieval Kirtle Dress Pattern
[Notícia] Austrian find dates bras back to 15th century: The scraps of lace found in a castle vault

3 comentários em “Como fiz uma roupa íntima medieval com sustentação para os seios”

  1. Adorei. Espero, em breve, começar a fazer as minhas próprias vestimentas. Tenho feito alguma investigação até porque pretendo ser o mais rigorosa possível quanto às técnicas. Quanto a materiais, o mais rigorosa que o dinheiro permitir.

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