Dicas

Tecidos para roupas medievais: quais usar e como adaptar?

A escolha dos materiais é um dos pontos mais importantes em qualquer projeto de costura histórica e impacta diretamente no resultado do seu trabalho. Afinal, qual tecido usar? O que pode? O que não pode?

Quando falamos de costura histórica medieval estamos nos referindo à recriação de trajes de centenas de anos atrás e que eram feitos com tecidos muito diferentes dos que temos hoje. A produção era manual, os teares eram mais estreitos, os processos pelos quais as fibras passavam eram diferentes, e por aí vai…

Ou seja, a escolha de tecidos para roupas medievais não se resume ao que pode e ao que não pode. Ela tem muito mais a ver com como usar e adaptar materiais modernos para se aproximar do aspecto dos trajes usados na Idade Média.

Por isso, vou falar neste texto sobre os tecidos usados na Idade Média europeia e também sobre por que e como encontrar alternativas financeiramente viáveis e esteticamente interessantes para os seus projetos de costura histórica medieval. Vamos lá?

Principais tecidos usados na Idade Média europeia

Quando falamos de tecidos disponíveis na Idade Média, é preciso ter em mente que existiam inúmeras variações tanto no nome dos tecidos quanto nas suas características. Afinal, a produção têxtil ainda era feita manualmente por meio de diferentes tipos de teares. 

Tendo isso em mente, separei a seguir algumas informações sobre as principais fibras têxteis utilizadas na Europa medieval. É a partir delas – lã, linho e seda –  que a maioria dos tecidos usados no período eram produzidos.

Utilizar pelos de animais para produzir linhas e consequentemente tecidos é uma prática comum desde a Pré-História. Na Idade Média, a lã era a fibra mais utilizada na confecção de roupas, uma vez que era produzida a partir do pelo de ovelhas em praticamente toda a Europa. 

De modo geral, haviam dois tipos principais de tecidos de lã: os feitos a partir de fios penteados, que eram mais resistentes e leves; e os de fios não penteados, que eram mais peludos e enrolados, e que precisavam passar por um tratamento maior para garantir um acabamento mais liso e resistente. 

Além disso, os tecidos variavam em qualidade de acordo com a espessura do fio e a contagem de fios por centímetro. Com isso, eram possíveis desde tecidos de lã mais frescos até peças mais quentes e pesadas. 

Um exemplo são os achados arqueológicos de Herjolfsnes na Groenlândia, datados do início do século 15. De acordo com o livro Medieval Garments Reconstructed: Norse Clothing Patterns, os têxteis ali encontrados eram tecidos de maneira muito justa e as roupas feitas com eles, quando novas, deveriam ser rígidas e inflexíveis. 

Tecidos de lã eram utilizados na maior parte das roupas externas: cotehardies, capas, capuzes, hoses, doublets, gardecorps etc. Além disso, como a lã é uma fibra que tem facilidade para “pegar” cor, as peças podiam ser tingidas com uma grande variedade de cores. A intensidade e a qualidade da cor variava, é claro, de acordo com a posição social e os recursos que o dono da roupa possuía para que ela fosse tingida de maneira adequada. 

Linho

Obtido a partir da planta de mesmo nome, o linho é uma das fibras mais antigas utilizadas para confecção de roupas. Fibras tingidas de linho selvagem foram encontradas em cavernas na Geórgia (o país, não o estado norte-amerricano) e datam de 36 mil anos atrás. 

Na Idade Média, o linho foi amplamente utilizado em toda a Europa, especialmente em roupas íntimas, camisas, braies, kirtles, túnicas e aventais.  

Vale lembrar que as características da fibra fazem do linho um tecido leve, lavável e que possibilita que a pele respire. Ou seja, a fibra era uma opção perfeita para confecção de peças que ficavam em contato direto com a pele e que eram lavadas com maior frequência. 

Assim como a lã, os tecidos de linho variavam de espessura e de qualidade. As opções mais finas, por exemplo,  eram utilizadas para os véus das mulheres.

O tingimento e a fixação de cor eram mais difíceis em tecidos de linho – ao menos na comparação com a lã e com a seda. Por isso, a fibra era utilizada sem tingimento ou em tons mais “desbotados”.

Leia também: Como fiz uma roupa íntima medieval com sustentação para os seios

Seda

Símbolo do luxo, caríssima, por vezes regulada por leis suntuárias e responsável pelo fortalecimento econômico e comercial de determinadas regiões, a seda é um dos mais importantes tecidos da História. 

A fibra, obtida a partir do casulo do bicho-da-seda,  é originária da China onde começou a ser produzida mais de 2 mil anos antes da Era Comum e posteriormente exportada para diferentes regiões do mundo. 

Na Idade Média, a seda desempenhou um papel importante na economia do Império Bizantino e posteriormente encheu os bolsos dos comerciantes italianos. A fibra – delicada, facilmente tingida e muitas vezes tecida com ricos padrões de brocados e estampas – era utilizada em diversas peças do vestuário da realeza e da nobreza. Além, é claro, das vestes eclesiásticas. 

Tecidos para costura histórica medieval: por é preciso adaptar?

Agora que você já sabe quais eram as fibras mais utilizadas na Europa medieval é hora de descobrir como adaptar isso para a nossa realidade e o nosso bolso. Sim, a adaptação de tecidos dentro da costura histórica não é apenas possível mas também necessária. Vamos entender por quê?

Porque tudo depende do seu objetivo

Qual é o objetivo da sua costura histórica? Aprender novas técnicas? Entender o que determinados povos vestiam? Fazer uma pesquisa acadêmica sobre o assunto? Um hobby para as horas vagas?

Entender seus objetivos (e suas limitações) é o primeiro passo na hora de escolher seus tecidos. Afinal, as adaptações e concessões em termos de materiais estão diretamente ligadas ao nível de acuidade histórica que você deseja. 

Tanto no Brasil quanto no exterior existem pesquisadores que recriam todas as técnicas de tecelagem e tinturaria, inclusive fazendo os próprios tecidos. Outro, buscam matérias-primas modernas que se assemelham aos tecidos utilizados na Idade Média. 

Isso não significa que o trabalho de quem cria seus próprios tecidos é “mais válido” do que o de quem usa tecidos modernos. São objetivos diferentes – e que precisam ser respeitados. 

Porque o  “100% historicamente correto” é uma ilusão

Mesmo que o seu objetivo seja ir fundo na recriação, importar matérias-primas, aprender a fiar e tecer seu próprio tecido, é preciso ter em mente que nenhuma peça de recriação será 100% igual a uma roupa do período. 

As matérias-primas dos tecidos mudaram ao longo de desses mais de 500 anos (mais de mil, se pensarmos toda a Idade Média). Além disso, os achados arqueológicos nos permitem uma visão de determinadas regiões e momentos e que nem sempre abarca tudo que era feito na época. 

Isso não significa que a acuidade histórica não tem importância, apenas que (novamente) tudo depende dos seus objetivos e escolhas. E que por mais historicamente correta que seja uma recriação, ela sempre será uma recriação. 

Por questões questões  financeiras

O fator financeiro é um dos mais importantes quando falamos de tecidos para costura histórica. Tecidos sempre foram caros, e ainda que hoje em dia eles sejam bem mais acessíveis do que na Idade Média, tecidos “puros” não são nada baratos. 

Por isso, é completamente aceitável que você use linhos mistos com algodão ou viscolinho em vez de um tecido com uma composição 100% linho, por exemplo.  O mesmo acontece com as lãs mistas que podem substituir as lãs puras por um preço bem mais acessível. 

Mas o aspecto econômico relacionado à compra de tecidos, ao menos para mim, vai muito além de gastar menos para fazer meus próprios projetos. Ele também diz respeito à democratização do conhecimento e ao incentivo para que mais pessoas possam ter a costura histórica como hobby. 

Dizer que alguém só pode usar linho puro para fazer uma túnica medieval, ou que é inaceitável utilizar tecidos sintéticos em um traje inspirado na Idade Média não ajuda em nada. Pelo contrário, só elitiza a costura histórica e faz com que muitas pessoas desistam de pesquisar sobre o assunto ou aprender técnicas de costura porque não têm dinheiro para comprar o tecido “correto”.

O que nos leva à próxima questão…

A pesquisa é a parte mais importante da costura histórica

Toda a pesquisa por trás de um traje – quem usava, em que região, dentro de qual contexto, quais eram as técnicas empregadas… – é muito mais importante do que a construção da peça em si. Porque é toda essa bagagem de conhecimento que vai permitir que você saiba quais serão as adaptações necessárias e evolua suas técnicas de costura histórica. 

Quando falamos especificamente dos tecidos, isso não é diferente. Você não precisa usar uma lã natural para fazer uma capa, por exemplo. Mas entender por que a lã era utilizada, quais as características ela traz para a peça, como é caimento, entre outras coisas é o que vai te ajudar a escolher o tecido que – dentro das suas possibilidades – mais se aproxima do resultado original. 

Resumindo, não adianta ter o tecido mais caro, importado e “correto” possível sem pesquisar e aprender sobre o seu uso. É muito mais divertido e saudável aproveitar a sua jornada de aprendizado utilizando os recursos e materiais que estão ao seu alcance.

Confira também: Vem aí o Desafio de Costura Histórica 2021. Bora participar?!

Como adaptar e escolher tecidos para trajes medievais?

Apesar de eu ter reforçado ao longo desse texto que as adaptações são necessárias, isso não significa que dá para utilizar qualquer tecido para fazer roupas medievais, beleza?

Por isso, para te ajudar na escolha dos materiais, separei algumas dicas de quais tecidos usar e quais evitar.

Preste atenção ao caimento

O caimento é um dos fatores mais importantes para alcançar uma aparência mais próxima das peças originais. Tecidos mais estruturados precisam ser substituídos por outros com um peso parecido. Assim como fibras mais leves demandam um substituto que também seja fluido. 

Se você comprar o tecido em uma loja física, uma boa dica é pedir para ver o tecido mais parecido com o original e comparar o caimento e as características. 

O linho, por exemplo, é um tecido leve e fresco que pode ser substituído por diversos tecidos de algodão que também sejam leves – até mesmo por lençóis velhos. Já tecidos mais estruturados como brim e sarja podem ser usados em capuzes ou em tabardos para simular o uso de lã. 

Dê preferência para as fibras naturais

Além de mais próximas dos materiais utilizados em séculos passados, as fibras naturais também são mais confortáveis e frescas que suas contrapartes sintéticas. Sabe quando você olha para um traje histórico e pensa: “Caramba, deve ser muito quente!” Nem sempre, porque tecidos feitos de fibras naturais permitem que a pele respire e ajudam a regular melhor a temperatura. 

Sou apaixonada por linho misto com algodão e viscolinho. São tecidos mais baratos que o linho puro, mas que ainda assim são feitos apenas com fibras naturais. 

Se o tecido for sintético, cuide para não ser “sintético demais”

Ainda que o uso dos tecidos sintéticos seja inevitável em muitos casos, tome cuidado para que o tecido escolhido não grite “sou feito de plástico!” Lãs sintéticas com brilho e cores berrantes, por exemplo, devem ser evitadas. 

Quando precisar usar um tecido sintético, opte por opções mistas. Assim você consegue ter um pouco das propriedades da fibra natural e evita que a sua peça fique com uma aparência sintética demais

Cuidado com as estampas e padrões

Sempre que você utilizar lã e linho – ou substitutos para eles – escolha tecidos lisos. Aliás, no caso dos trajes medievais, só as sedas do final da Idade Média é que traziam algum tipo de padronagem. Muitas das “estampas” e padrões que vemos em algumas peças no período são, na verdade, bordados. 

Por isso, evite estampas. E no caso dos brocados de seda e suas adaptações, opte por padrões parecidos com aqueles vistos em iluminuras, pinturas e achados arqueológicos. 

Tecidos de decoração são seus melhores amigos

Linhos e outros tecidos para cortina são ótimas opções para quem se aventura pela costura histórica. Em lojas de tecido de decoração é possível encontrar opções de jacquard com padronagens semelhantes aos brocados de seda. Além disso, muitos desses tecidos tem 2,80m ou 3m de largura em vez dos habituais 1,40 dos tecidos para roupa, o que facilita a vida (e economiza dinheiro) na hora de fazer peças que precisam de muitos metros. 

Reaproveite tecidos 

Ao longo da História os tecidos de lençóis, cortinas e de roupas que não serviam mais eram comumente utilizados para criar novas peças. Ou seja, reaproveitar tecidos ajuda a reduzir o descarte de resíduos têxteis, permite economia e ainda é historicamente correto. 

Leia também: Fillet de tecido: como fazer um acessório de cabeça reaproveitando retalhos

Parece fantasia de 1,99? Fuja!

Por fim, uma dica boba mas bem útil que vale não só para costura histórica, mas para figurinos, cosplays e etc. Se o tecido tiver a aparência de algo que você veria em um fantasia pronta de carnaval, halloween ou aniversário de criança, fuja. (Sim, cetim… eu estou falando de você.)

Gostou do texto? Tem alguma dúvida sobre tecidos? Deixa nos comentários ou fala comigo pelas redes da Merlim Crafts (Instagram e Facebook)

Referências:

Medieval Garments Reconstructed: Norse Clothing Patterns – Lilli Fransen, Anna Nørgaard e Else Østergård
The Medieval Tailor’s Assistant – Sarah Thursfield
30,000 Years Old Wild Flax Fibers – Testimony for Fabricating Prehistoric Linen  
Clothes Make the (Hu) Man
Trajes Históricos: Como escolher os tecidos? – A Modista do Desterro 
Esse tal de historicamente correto – Juliana Lopes 
The Impact of Silk in the Middle Ages – Textile Society of America  
Fabric: What is ‘historically accurate’? – The Dreamstress 
Wool: Medieval Europe’s Common Cloth

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