Século 14, Século 15, Vestuário

Fiz um kirtle (vestido dos séculos 14 e 15) em 15 dias: veja como foi

No finzinho do ano passado resolvi me desafiar a fazer um vestido medieval em quinze dias. A ideia era usar a máquina de costura o mínimo possível e criar uma peça majoritariamente feita à mão e seguindo as técnicas de costura do período. 

Spoiler: Consegui e me dei de presente de aniversário um vestido bem versátil baseado em modelos do fim do século 14 e início do 15. 

Se você segue a Merlim Crafts no instagram, provavelmente acompanhou um pouco desse processo por lá. Mas agora aproveito este texto para contar de forma mais detalhada como foi fazer este vestido. Bora conferir?

O kirtle (séc. 14 e 15)

Se alguém me perguntar qual é a minha peça de roupa histórica favorita, provavelmente eu vou responder que é o kirtle medieval. É um vestido que parece simples, mas que combina com muita coisa e é bem característico do final da Idade Média. 

A peça surgiu na segunda metade do século 14  e se caracteriza por um vestido ajustado no tronco e nas mangas, com uma abertura geralmente frontal – e às vezes lateral – fechada normalmente com cordões.

As mangas, por sua vez, costumavam ser fechadas com uma série de botões que podiam ir até o cotovelo ou além. Isso permitia que a manga pudesse ficar bem justa no braço. 

O kirtle era usado por cima da roupa íntima e como uma camada abaixo de um surcote, de um outro vestido ou de outra sobreveste. No caso das mulheres trabalhadoras – que usavam menos camadas de roupa – o kirtle era, em muitos casos, a peça externa do vestuário. 

Além dos modelos com manga comprida, também é possível encontrar, sobretudo no século 15, kirtles de manga curta. Existiam ainda os modelos com mangas removíveis, que eram presas com alfinetes ou cordões e podiam ser intercambiáveis entre diferentes vestidos. 

Outra variação são as peças mi-parti ou parti-coloured, ou seja, divididas em duas cores. Esse tipo de roupa era bastante comum entre músicos e artistas e também caiu no gosto das mulheres nobres no século 14. 

(Obs: A partir da segunda metade do século 15, surgem os kirtles com uma divisão na cintura  e que vão continuar inclusive depois do fim da Idade Média. A peça também se chama kirtle, mas para evitar confusão, neste texto eu não vou falar sobre ela.)

Construindo meu kirtle 

Agora que já passamos por essa rápida contextualização, vamos para o meu vestido. 

Optei por fazer um kirtle com mangas compridas (fechadas com botões de tecido) e com abertura frontal fechada com cordão.

Kirtles eram geralmente feitos com lã ou com linho. Por isso escolhi o linho  – uma opção mais barata e fresca.

Em relação à cor, usei um tecido marrom caramelo. Não é a opção mais historicamente correta já que os linhos medievais eram mais claros – uma vez que nem sempre eram tingidos. A cor em si, no entanto, faz sentido com o período e pode ser vista em algumas iluminuras e pinturas da época. 

(Antes de ir para o resumo diário, uma observação: eu fiz o vestido entre os dias 14 e 29 de dezembro de 2020. Ou seja, aí no meio tem Natal, dias em que eu trabalhei e dias em que eu estava de férias. Por isso, em alguns dias eu pude dedicar mais tempo ao projeto e em outros não. Infelizmente eu esqueci de contabilizar as horas trabalhadas, então fica para a próxima…)

Dia 1: Ajustar moldes e riscar o tecido

No primeiro dia, ajustei o molde do tronco que eu já tinha utilizado para fazer a chemise suportiva. São dois painéis frontais com a costura da frente curvada e dios painéis das costas. Para ampliar cada painel, usei oito nesgas (gores) – o que possibilitou uma saia bem ampla. Também precisei criar um padrão de manga em S ajustado com o molde do tronco. 

(Tanto o molde do corpo quanto das mangas podem ser encontrados em livros como o The Medieval Tailor’s Assistant e História do Vestuário). 

Com os moldes prontos, risquei tudo no tecido. Ao todo, utilizei 4 metros de linho misto. Foi um pouco mais do que normalmente uso, pois confesso que fui um pouco ambiciosa na quantidade e na larguras dos gores. Dependendo das suas medidas e do tamanho dos gores que você utilizar, dá para fazer esse modelo de vestido com uns 3 metros de tecido. 

Dia 2: Cortar o tecido e juntar as peças

No segundo dia, cortei todas as peças de tecido e alfinetei tudo. Aqui foi o momento de trapacear um pouco no “historicamente correto”. Juntei os gores e os painéis do corpo do vestido na máquina de costura.

Dias 3 e 4: Botões de tecido

Uma das técnicas de costura medieval que eu mais gosto são os botões feitos com o próprio tecido. Além de práticos e perfeitos para aproveitar os retalhos do tecido, eles ficam lindos. 

No terceiro e no quarto dia do projeto eu fiz os 20 botões do vestido – dez para cada manga. 

Dias 5 a 11:  Costuras de acabamento interno 

Apesar de ter usado a máquina de costura para juntar as peças, decidi fazer o acabamento interno de todas as costuras à mão usando o ponto de bainha (hemming stitch). Embora feita na parte interna, essa costura deixa o exterior do vestido mais plano e melhor acabado. 

Aqui usar uma linha de algodão e passar a cera de abelha nela foi fundamental para a costura render e ficar bem resistente (sério, gente: cera de abelha é tudo!).

Foram seis dias do projeto para fazer as costuras internas. A princípio, eu achei que tinha demorado muito, mas peguei uma fita métrica e tudo mudou. Se eu contar todas as costuras de acabamento, exceto a barra do vestido, dá um total de 26 metros de ponto de bainha feitos à mão. Então acho que até foi rápido…

Dia 12: Mangas

Com o corpo do vestido pronto, dediquei o décimo segundo dia às mangas. Além das costuras normais de acabamento, também usei ponto em espiral para inserir um reforço de uns 3cm de largura nas partes da manga que iriam receber os botões e as casas de botão. 

Dia 13: Fazer as casas de botão e pregar os botões 

Fazer casas de botão – seja na máquina ou manualmente – sempre foi uma das minhas principais dificuldades. Mas com bastante paciência e um fio de crochê/bordado bem encerado, deu tudo certo e eu gostei bastante do resultado. 

Ainda no décimo terceiro dia preguei os botões a uma distância de 2,5 cm de cada um e finalizei as mangas.

Dia 14: Reforço do decote e da abertura frontal

No penúltimo dia usei  a mesma técnica das mangas e inseri um reforço de tecido ao redor de todo o decote do vestido e também na abertura frontal da peça. O reforço ajuda a deixar o vestido mais resistente, principalmente na região onde serão feitos os ilhoses. 

Dia 15: Ilhoses, cordão e bainha do vestido

E por falar em ilhoses, comecei o último dia com eles. Foram 38 buraquinhos feitos com o furador manual e finalizados com a linha de bordado. 

Várias pessoas já me perguntaram sobre a resistência dos ilhoses feitos à mão e sim, eles são bem resistentes. Usar uma linha mais grossa e bem encerada ainda ajuda para que eles aguentem a tensão dos cordões. 

(Vale lembrar que os ilhoses de metal só foram inventados no século 19, ou seja, por séculos até mesmo os corsets e stays eram fechados com ilhóses feitos à mão). 

Mas os ilhoses precisavam do cordão que iria fechar o vestido e essa foi, de longe, a parte mais trabalhosa de todo o projeto.  

Eu fiz o cordão utilizando a técnica de finger loop braid, mas cometi o erro de usar uma linha muito fina. O resultado: o cordão ficou ótimo, com quase 2 metros mas demorou muito para ser trançado. Foram mais de 2 horas traçando a linha com os dedos.

Por fim, também no último dia ajustei e costurei a bainha do vestido utilizando, claro, o ponto de bainha. 

Resultado

Foi divertido e desafiador costurar esse vestido no tempo estabelecido, mas consegui terminar a tempo e gostei bastante do resultado. 

Ele ainda precisa de alguns pequenos ajustes. A manga ficou um pouco larga na parte que vai do ombro ao cotovelo e a cintura também poderia ser um pouco mais justa. Então provavelmente eu vou mexer um pouquinho nele no futuro. 

Meu maior orgulho são os botões das mangas que ficaram exatamente como eu tinha planejado. Além, é claro das costuras de acabamento.

Espero que vocês tenham gostado de saber mais sobre o meu kirtle tanto quanto eu gostei de fazer e usar!

Para saber mais sobre esse e outros projetos, acompanhe também as redes sociais da Merlim Crafts:

Ah, e não se esqueça que está rolando o Desafio de Costura Histórica 2021. Confira todas as informações neste post e participe!

Referências:

[Livro] A história do Vestuário – Carl Köhler
[Livro] The Medieval Tailor’s Assistant – Sarah Thursfield
[Texto] Rosalie’s Medieval Woman – Kirtles: The Medieval Dresses of the 14th Century
[Texto] Tutorial: Supportive Kirtle – Morgan Donner
[Texto] A curved-front seam fitting method for a bust-supportive dress
[Vídeo] Drafting a Medieval Kirtle Dress Pattern
[Vídeo] Finger Loop Braiding Tutorial for Historical Clothing – Daisy Viktoria

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