Martin Schongauer Madonna in Rose Garden - século 15
desafio de costura histórica, Vestuário

Vermelho na Idade Média – simbologia, pigmentos e vestimentas

Mais um mês, mais um tema do Desafio de Costura Histórica… Em junho, o desafio será vermelho. Isso mesmo, a ideia é fazer qualquer peça, de qualquer período anterior a 1970, usando a cor vermelha. 

Das pinturas rupestres às famosas solas dos sapatos Louboutin, o vermelho sempre foi uma cor bastante simbólica, cobiçada e importante ao longo da história – tanto na arte, quanto na moda. 

No Ocidente medieval isso não foi diferente. O vermelho estava presente na arte, no cotidiano e no vestuário da Europa da Idade Média – seja em mantos de imperadores, na indumentária eclesiástica, na heráldica dos exércitos ou nos tecidos dos comerciantes. 

Por isso, neste texto vou falar um pouco sobre o simbolismo, as técnicas de tinturaria e outras informações sobre o vermelho na Idade Média.  Além, é claro, de deixar algumas referências visuais para inspirar o seu projeto de junho do Desafio de Costura Histórica. 

A simbologia do vermelho no Ocidente medieval: fogo, sangue e poder

O aspecto simbólico da cor vermelha no período medieval está diretamente ligado à Igreja. Uma vez que a cor foi incorporada ao longo dos séculos a diversas áreas da vida religiosa – em vestimentas, em objetos litúrgicos e peças artísticas. 

No livro Vermelho: A história de uma cor, Michel Pastoureau destaca que o simbolismo cristão medieval associa o vermelho tanto a aspectos bons (sangue) quanto ruins (fogo).  Quando associado ao sangue – especialmente o Sangue de Cristo – reforça a ideia da salvação por meio do sacrifício de Jesus. Quando tratado como fogo, representa as chamas do inferno e o dragão do Apocalipse. 

Mas a simbologia do vermelho no período medieval não está limitada à Igreja. A cor também representava poder e estava presente nas vestes de muitos dos reis do período. 

Quando o púrpura – que tinha sido a cor dos governantes do Império Romano e dos Imperadores Bizantinos – foi ficando mais escasso, o vermelho carmesim assumiu o posto de cor relacionada ao poder das monarquias européias na Idade Média. 

O vermelho tinha ainda uma forte presença na heráldica medieval. Pastoreau destaca que conhecemos cerca de sete mil diferentes brasões de armas da Europa Ocidental no período de meados do século 12 ao início do século 14. Destes, 60% inclui algum elemento vermelho. 

Pigmentos: como o vermelho era obtido na Idade Média?

Diversas matérias-primas – de origem animal, vegetal ou mineral – foram empregadas ao longo da história para obter diferentes tons de vermelho. 

Entre os pigmentos utilizados na Europa Medieval, destacam-se as raízes da planta Rubia tinctorum (madder); o Kermes vermilio, um tipo de inseto; e a brasilina, um corante natural proveniente de algumas madeiras – incluindo o pau-Brasil. 

Kermes

O Kermes vermilio, também conhecido como quermes dos tintureiros ou grão escarlate, é um tipo de inseto, cujo corpo seco era utilizado para obter um corante natural carmesim. O corante, inclusive, também era chamado de kermes ou quermes – e é a origem de termos como carmim e carmesim.

Os quermes têm cerca de 6 a 8cm e apenas as fêmeas do inseto produzem o corante. Ou seja, não é difícil imaginar que a produção do pigmento era custosa e que a tinta produzida era extremamente valiosa. Tanto que a tinta obtida por meio dos quermes costumava fazer parte do tributo pago aos exércitos romanos, e também era aceita pelos proprietários de terras medievais como pagamento do aluguel das terras. 

Na Idade Média os quermes eram coletados em regiões como o sul da França e o sudeste da Península Ibérica. O pigmento era utilizado tanto para tingimento de tecidos, como também para pintura de iluminuras. 

O uso de quermes na tinturaria europeia diminuiu consideravelmente com a chegada dos europeus às Américas. Espécies de insetos da fauna do continente americano, como a cochonilha, também serviam para produzir tons vermelhos e tinham um rendimento melhor. 

Madder (Rubia tinctorum)

Conhecida pelo nome de ruiva-dos-tintureiros ou garança (e no inglês, madder) a rubia tinctorom é uma planta nativa desde o Mediterrâneo até a Ásia Central. Suas raízes foram – desde o Egito Antigo, mais de dois mil anos antes da Era Comum, amplamente utilizadas na tinturaria para obter pigmentos que variam do rosa a diferentes tons de vermelho. 

A garança é mencionada, especialmente em fontes medievais francesas, como sendo cultivada pela europa já na Alta Idade Média. No século 8, por exemplo, Carlos Magno decretou que a garança fosse cultivada em diferentes localidades do seu vasto império. Áreas que hoje correspondem a França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, e partes da Itália e Espanha. 

A garança também teve grande importância nas florescentes cidades italianas de comércio de tintas, como Florença, Gênova, Veneza e Pisa. A fortuna da grande família florentina de escultores e ceramistas, os Della Robbia, foi, em grande parte, construída no comércio têxtil. Seu nome deriva de “rubia”, o nome italiano da garança. 

Brasilina

Não é nenhuma novidade que a partir do início do século 16 o pau-brasil foi incessantemente extraído do Brasil para virar corante de europeu safado. Mas antes mesmo da chegada às Américas, o corante brasilina  já era utilizado na Europa medieval. 

Isso porque a brasilina não é extraída somente do pau-brasil (Paubrasilia echinata) mas também de outras espécies como a Caesalpinia sappan, Caesalpinia violacea, árvores que cresciam em países da Ásia, como Malásia, Indonésia e Sri Lanka e eram comercializadas com os europeus nos últimos séculos do período medieval. 

Quem usava vermelho na Idade Média?

Os pigmentos vermelhos, especialmente os mais vibrantes e duráveis, eram caros e profundamente relacionados à realeza e a Igreja. Mas isso não significa que somente essas classes podiam vestir roupas vermelhas. 

Citando novamente o Pastoureau: “Papal, imperial, real […] O vermelho também era totalmente aristocrático. Era a cor favorita da alta e da baixa nobreza que valorizava todas as coisas vermelhas: tecidos, jóias, pedras preciosas, flores, decorações e emblemas.”

Além disso, a cor também era apreciada e usada por mercadores, artesãos e pessoas comuns. 

Ou seja, pessoas de classes mais baixas obviamente não teriam acesso a trajes completos do mais puro vermelho carmesim. Mas elas podiam sim utilizar itens mais pequenos e com pigmentos inferiores, especialmente em ocasiões especiais como festas e feriados. 

Desafio de costura histórica: inspirações (vermelhas) para você!

Agora que você já acompanhou um contexto bem geral do vermelho na Idade Média, é hora de falar sobre o desafio de costura histórica. 

As possibilidades são muitas. Excetuando peças como roupas íntimas, por exemplo, o vermelho está presente nos mais diferentes itens da indumentária medieval, tanto masculina quanto feminina. Diversos tipos de vestidos, calças, capas, cotehardies, meias, bolsas, capuzes, acessórios de cabeça, cintos e muito mais… 

E para te inspirar, separei um monte de referências visuais bem vermelhas…

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Referências:

[Livro] Vermelho: A história de uma cor –  Michel Pastoureau 
[Livro] Ancient and Medieval Dyes – William Ferguson Leggett 
Next The Della Robbia Family in Florence and Panzano in Chianti 
Kermes | insect and dye 
Rubia tinctorum | The Medieval Garden Enclosed 
Fragment of a quiver (?) | Middle Kingdom | The Metropolitan Museum of Art 
Vermelho: A história por trás da cor 
The Intriguing History of the Color Red, from Vermilion to Cadmium Red 
Púrpura. Materialidad y simbolismo en la Edad Media – Laura Rodríguez Peinado
Dyeing with kermes is still alive! – A Verhecken
Identifying Natural Dyes to Understand a Tapestry’s Origin
Pigments through the Ages – Color of power 
The Secret History of the Color Red — Google Arts & Culture 
Rosalie’s Medieval Woman – Dyes and Colours 
Dye plants of the early Middle Ages

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