Glossário de Costura Medieval

Saber o nome de cada item da indumentária medieval facilita a pesquisa por referências de trajes do período. Por isso, o glossário a seguir reúne uma série de termos usados para designar vestimentas, moldes e técnicas. Mas primeiro, algumas considerações importantes:

  • A maioria dos termos está listada em inglês, porque é o idioma de boa parte dos livros e fontes que uso – e porque é como você vai encontrar a maior parte das informações sobre trajes medievais.
  • Muitos itens de vestuário possuem nomes diferentes de acordo com a região ou período, tentei listar algumas variações, mas elas são obviamente muito maiores.
  • A ideia é que este seja apenas um ponto de partida para sua pesquisa. As referências utilizadas no glossário e nos demais conteúdos do site podem ser acessadas neste link.

Esta lista será constantemente atualizada. Se você tiver alguma dica ou sugestão de termo para ser acrescentado, deixe na área de comentários no final da página.


Aketon, ackerton ou houqueton: Parte do traje militar do século XIV, o aketon é um tipo de jaqueta de linho ou couro, que era utilizada embaixo da cota de malha

Apron: Avental. Diferentes tipos de aventais eram usados por homens e mulheres para proteger a roupa de sujeira e danos. A forma e material dependiam da tarefa desempenhada: ferreiros, por exemplo, usavam aventais de couro, enquanto cozinheiros e outros trabalhadores usavam peças de tecido.

Baldric: Cinto usado trespassado do ombro ao quadril. Era projetado para segurar uma arma ou um instrumento musical de guerra.

Barbette: Faixa de linho reta, passada sob o queixo e presa no topo da cabeça. Era usada por mulheres acompanhada de uma rede de cabelo ou de um fillet.

Bliaut ou bliaud: Vestido solto que teve seu auge na segunda metade do século 12, caracterizado principalmente por suas mangas amplas que se alargam a partir do cotovelo. O bliaut feminino era mais justo na cintura, sendo fechado por cordões nas laterais ou nas costas. Já os modelos masculinos eram mais curtos e mais largos. As peças normalmente eram adornadas com faixas ou bordados na barra das mangas e no decote.

Bodice ou body: Denominação da parte de uma vestimenta ou do padrão de molde correspondente ao tronco do corpo, do pescoço à cintura. 

Braies: Espécie de calções usados como roupa íntima masculina básica. Eram feitos de uma peça reta de linho, com o cinto fechado na cintura. Apesar de ser uma peça íntima, braies não ficavam necessariamente escondidos sob as demais roupas.

Burlet: Aro utilizado como acessório de cabeça pelas mulheres nos séculos 14 e 15. Em alguns casos era feito de vime e coberto com peles ou tecidos; em outros, consistia em apenas um rolo de tecido. O burlet variava de espessura e podia ter um formato em V na testa. 

Bycocket ou Byecocket: Chapéu do início do século 14 utilizado por homens e mulheres especialmente em cavalgadas e atividades de falcoaria. Possuía uma aba arrebitada que se projetava para frente formando uma ponta. Era, em muitos casos, ornamentado com bordados, penas e broches.

Burgundian gown: Surgido na década de 1440, era um vestido em forma de linha A, com decote V profundo. Possuía mangas justas e, na maioria dos casos, bordas de pele nos punhos, decote e barra. Era usado sobre um cotehardie ou kirtle justo e com um cinto largo logo abaixo dos seios.

Caul: Touca feminina composta por uma rede para cabelo decorada com fios de seda e peças de ourivesaria. Era muitas vezes forrada com com seda.

Chaperon: Tipo de chapéu que nasceu como um uso diferente de um hood a partir do final do século 13. A abertura do rosto do capuz era colocada na cabeça, enrolando a peça e deixando a borda pendendo de um dos lados enquanto o liripipe caía do outro. Posteriormente o chaperon se desenvolveu como uma peça à parte: o liripipe passou a ser mais comprido e a peça recebeu um rolo acolchoado para dar mais volume ao redor da cabeça.

Cloak: Capas eram uma das formas mais comuns de proteção usadas por diferentes classes em todo o período medieval. Feitas normalmente de lã, as capas podiam ou não ter capuzes. A peça consistia geralmente de um semicírculo, podendo ser feita como um círculo completo no caso de capas mais ricas.

Crespine ou crespinette: Espécie de rede para cabelos da segunda metade do século 15.

Coif: Touca justa, geralmente de linho, com um cordão amarrado embaixo do queixo. Era amplamente usada no século 13, geralmente sob um chapéu ou capuz. Caiu gradualmente em desuso e por volta do século 15 é vista principalmente em bebês e crianças pequenas, profissionais e homens mais velhos.

Cotehardie ou cottehardie: Sobreveste justa usada por homens e mulheres a partir de meados do século 14. Era feita sob medida para caber no tronco e nos braços, geralmente com uma fileira de botões na frente e também em cada manga – justa do cotovelo ao pulso. Os modelos femininos iam até o chão enquanto os masculinos eram mais curtos.

Dagging: Acabamento decorativo de roupas de meados do século 14 até o século 15. Consistia em recortes no tecido e era utilizado em volta de capuzes, nas bainhas de cotehardies e mantos, e em mangas largas como as dos houppelandes.

Dalmatic: Vestimenta derivada de peças romanas e bizantinas, a dalmática era usada no Ocidente principalmente como uma vestimenta eclesiástica. Possuia mangas largas, fendas na saia e decoração vertical. 

Debrum: Fita costurada na borda de um tecido para ornamentação e reforço – evitando que a trama desfiasse.

Demicient ou demicient belt: Cinto feminino do século 15, geralmente de cintura baixa. Tratava-se de um cinto reto que terminava em um par de acessórios redondos unidos por um gancho e uma corrente.

Doublet, pourpoint ou gambeson: Gibão/jaqueta justa masculina, que cobria o corpo do pescoço até o quadril ou até as coxas. Era usado como peça de proteção, geralmente sob a armadura. Feita de pelo menos duas camadas de tecido, o doublet tinha revestimento acolchoado entre as camadas para garantir reforço e proteção.

Fillet:  Faixa achatada de espessura variável usada ao redor da cabeça. Feito de tecido enrijecido ou de metal, o fillet muitas vezes era decorado com pérolas ou joias.

Escoffin ou heart shaped hennin: Chapéu feminino do século 15 alto e em formato de coração. Era ricamente decorado com pérolas, fios de ouro ou prata e pedrarias. A peça possuía um rolo acolchoado no topo, geralmente forrado de veludo. 

Fingerloop braiding: Técnica de confecção de cordões a partir de tranças feitas com os dedos. Os fios são presos em um ponto fixo e a trança é feita a partir da manipulação dos laços com os dedos das duas mãos. Esse tipo de técnica é encontrada não apenas na Europa Medieval, mas também em diversas regiões e períodos.

Fitchets: Pequenas fendas verticais cortadas na parte da frente de peças como cotehardies e surcotes que permitiam o acesso às bolsas e cintos utilizados embaixo. Alguns fitchets tinham as bordas forradas com pele e também era utilizadas para esquentar as mãos.

Gardecorp ou garde corp: Vestimenta ampla, semelhante a uma capa, com uma abertura no ponto em que a manga se junta ao corpo. Vistos especialmente em imagens do final do século 13, os gardecorps variavam no comprimento e amplitude das mangas, e também no comprimento da peça.

Grande assiette ou La grande assiette: tipo de corte/molde utilizado no final do século 14 e no século 15 em que a manga era inserida em uma cavidade profunda no corpo da vestimenta (nas costas e na frente) com o auxílio de nesgas (gores ou gussets). Essa modelagem permitia maior movimento dos braços e melhor ajuste da peça.

Giornea: Vestimenta italiana do século 15 aberta nas laterais, que possuía um decote em V e pregas a partir da cintura. Em alguns casos, podia ser usada com um cinto. Os modelos masculinos eram mais curtos e, muitas vezes, forrados e adornados com pele. Já a giornea feminina era longa, caindo dos ombros até o chão.

Gore: Pedaço triangular de tecido inserido – geralmente na altura da cintura – para alargar ou dar forma a uma peça de roupa. Nesga.

Gusset: pequeno pedaço de tecido – geralmente quadrado ou triangular – inserido para ampliar parte de uma vestimenta. É usado principalmente em mangas para garantir mais mobilidade ao braço.

Hennin: chapéu feminino alto e em formato de cone. Era feito de material rígido ou tecido engomado e coberto com um tecido rico e decorado com fios de ouro ou prata, pérolas e outras pedrarias. Existiam variações de hennin com um único cone, outros com dois (como chifres), e versões com três.

Hood: Denomina, de maneira geral, um capuz. Populares na Idade Média, eram usados da mesma forma por ambos os sexos – desde os membros da realeza e nobreza até as classes mais pobres. O que diferenciava os diferentes tipos de hood eram os ornamentos, corte, cor e qualidade do tecido.

Hose ou chausse: Meião que cobria as pernas total ou parcialmente e em alguns casos também servia como sapato. Por se tratar de uma peça cujo caimento exigia extrema habilidade dos alfaiates, hoses mais justos eram sinal de status social. Já as classes mais baixas usavam versões mais largas e ajustadas com cordões.

Houppelande: Vestido rico e elegante usado por homens e mulheres. Geralmente com uma gola alta, é uma peça ampla que se ajusta abaixo do busto e depois flui em grandes dobras. O houppelande possui mangas muito amplas, por vezes adornadas com daggings ou forradas com peles. Surgiu na segunda metade do século 14 e foi bastante usado no século 15 pela nobreza.

Kirtle: Vestido feminino justo surgido a partir da segunda metade do século 14. Era feito sobre medida para se ajustar no corpo e se alargar a partir da cintura. Era usado como peça íntima ou como uma camada abaixo de um cotehardie, surcote, ou de vestidos mais amplos (como os do século 15). O kirtle também era uma peça bastante popular do vestuário das mulheres trabalhadoras.

Liripipe: Espécie de cauda presente em diferentes tipos de capuzes. Variava em largura e comprimento, sendo que modelos mais longos podiam ser enrolados no pescoço ou presos no cinto. O liripipe pode ser cortado no tecido do capuz ou costurado separadamente.

Mantle: Assim como cloak, mantle também designava uma capa, geralmente circular e longa. (O The Medieval Tailor’s Assistant diferencia os dois termos pelo uso da peça. Cloak seria uma capa de proteção, enquanto mantle se referia a peças decorativas e cerimoniais, comumente associadas à realeza ou ao clero).

Opus anglicanum: Tipo de bordado inglês produzido entre os séculos 12 e 15. Extremamente rico e intrincado, o bordado costumava ter fios de ouro ou prata, além da aplicação de pérolas e pedras preciosas. O opus anglicanum era feito especialmente em itens religiosos como roupas, cortinas e outros tecidos, mas também estava presente em itens seculares.

Open hood ou London hood: Tipo de capuz com liripipe e botões. Podia ser usado tanto com a frente aberta quanto fechada pelos botões. A borda da abertura do rosto era geralmente dobrada para trás.

Parti-coloured ou mi-parti: Peças do século 14 – geralmente cotehardies masculinos ou femininos – divididas verticalmente em duas cores. 

Purse ou pouch: Pequena bolsa de tecido ou couro utilizada presa ao cinto e geralmente fechada com cordões. Os modelos de tecido por vezes eram decorados com bordados e outros ornamentos. 

Smock, shift ou chemise: Roupa de baixo feminina, geralmente de linho. Era cortada como uma camisa mais longa, a partir de peças retangulares da tecido e podia ou não ter inserção de gores. Peça presente ao longo de toda a Idade Média, a chemise passou por variações ao longo dos séculos, sobretudo em relação ao estilo da gola ou decote e ao comprimento da peça.

Smokkr, hängerock, hängselkjol: alguns dos termos usados por pesquisadores para se referir ao vestido/avental utilizado pelas mulheres na Era Viking. Em inglês, a peça é genericamente chamada de aprion dress. (Sobre o assunto, recomendo a leitura do texto Terminology: The So-Called ‘Viking’ Apron Dress

St. Birggita Cap: Capuz de linho simples que leva este nome pois o achado arqueológico da peça é associado à Santa Bridget of Sweden, também conhecida como Birgitta de Vadstena (1303-1373). Presente em várias imagens dos séculos 13 e 14, o capuz era composto por duas partes de tecido unidas por um bordado central. O capuz cobria o cabelo e era preso por uma faixa estreita que dava a volta na cabeça.

Surcote, surcot ou surcoat: Sobreveste comum na Baixa Idade Média, caracteriza-se pelas longas aberturas laterais  – através das quais ficava visível o kirtle ou coterhardie debaixo. Existiam diversas variações de surcotes, desde peças simples e sem adornos até modelos forrados com peles e ricamente adornados.

Tabard, tabarde ou tabardo: Tipo de túnica aberta nas laterais – sem mangas ou com mangas curtas – e presa por um cinto. O tabardo era comumente utilizado por cavaleiros medievais sobre as suas armaduras e trazia, em muitos casos, elementos da heráldica.

Tablet weaving ou card weaving: Técnica antiga e amplamente utilizada para fazer faixas decorativas. As faixas, feitas de fios de lã, linho ou seda, eram utilizadas em cintos, tiaras, bolsas e também para costurar roupas.

Tappert: vestimenta alemã do final da idade média, o tappert era uma espécie de casaco, geralmente adornado com peles e com mangas largas, que variava em estilo e comprimento e que podia ser aberto nos lados. Embora tenha surgido como uma vestimenta masculina, também foi incorporado ao guarda roupa das mulheres. Pode ser entendido como a versão alemã da giornea.

Tipett ou tappit: peça ornamental presente nas mangas de kirtles e cotehardies do final do século 14. A peça era composta por uma faixa que circundava o braço, presa a outra faixa estreita e longa que ficava pendende. Os tippets eram geralmente brancos, feitos de pele ou de tecido em alguns casos eram cortados no formato de daggings. Não há consenso entre pesquisadores se a peça era costurada na manga do vestido ou se era atada e destacável.

Veil: Véu. Cobertura para cabeça usada pelas mulheres. O véu era feito de linho ou seda, cobrindo a cabeça e os ombros.

Wimple: Véu de linho fino ou seda popular a partir do século 13 e que cobria o pescoço e muitas vezes o queixo. Era usado com um véu de cabeça e/ou com um fillet.